quarta-feira, julho 05, 2006

Parabéns Mia Couto

A 5 de Julho de 1955, nasceu na cidade da Beira, Moçambique, o cidadão António Emídio Leite Couto, que viria a ficar conhecido como Mia Couto.
Admirador confesso do escritor e do homem, apresento-lhe os meus parabéns.

Em 7 de Março de 2005, o escritor moçambicano fez uma oração de sapiência, na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Dessa oração, destacamos Os Sete Sapatos Sujos:

"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:

* Primeiro sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros.
* Segundo sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
* Terceiro sapato - O preconceito de que quem critica é um inimigo.
* Quarto sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
* Quinto sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
* Sexto sapato - A passividade perante a injustiça.
* Sétimo sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros."


Porque estamos em tempo de Mundial de Futebol, não resisto a transcrever parte do conto "O Mendigo Sexta-Feira Jogando no Mundial", publicado no Fio das Missangas, editado em 2004:

"Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças [...].
[...] Desta feita, porém, é diferente. Pois eu, de nome posto de Sexta-Feira, me apresento hoje com séria e verídica queixa. Venho para aqui todo desclaviculado, uma pancada quase me desombrou. Aconteceu quando assistia ao jogo do Mundial de Futebol. Desde há um tempo, ando a espreitar na montra do Dubai Shoping, ali na esquina da Avenida Direita. É uma loja de têvês, deixam aquilo ligado na montra para os pagantes contraírem ganas de comprar. Sento-me no passeio, tenho meu lugar cativo lá. Junto comigo se sentam esses mendigos que todas sextas-feiras invadem a cidade à cata de esmola dos muçulmanos. Lembra? Foi assim que ganhei meu nome de dia da semana. Veja bem: eu que sempre fui inútil, acabei adquirindo nome de dia útil
É ali no passeio que assisto futebol, ali alcanço ilusão de ter familiares. O passeio é um corredor da enfermaria. Todos nós, os indigentes ali alinhados, ganhamos um tecto nesse momento. Um tecto que nos cobre neste e noutros continentes.
Só há ali um no entanto, doutor. É que sou atacado de um sentimento muito ulceroso enquanto os meus olhos apanham boleia para a Coreia do Sul. O que me inveja não não esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? [...]

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1 Comments:

At 07:59, Anonymous Anónimo said...

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