quinta-feira, dezembro 08, 2005

GUINÉ (HOJE GUINÉ-BISSAU) - 1970-1973


EMENTA SUI GENERIS

Como muitos da minha geração, também eu tive direito a umas «férias» nas antigas colónias, com viagens gratuitas de ida e volta (as das férias tive eu de as pagar...) guardando desse período, como é inevitável, algumas histórias que considero interessantes.
Esta ocorreu no dia 8 de Dezembro de 1971 - também feriado na guerra - tendo eu e alguns camaradas por missão pintar as instalações da secretaria.
Depois de executada a tarefa, houve direito a uma ementa especial, com a particularidade de a mesma não ser servida no velho refeitório, mas sim na cantina e com um número reduzido de camaradas, onde se incluíam além dos pintores também os sargentos - estes não executores das tarefas das pinturas mas de uma outra muito mais interessante: caçar tordos (missão a que eu sempre me baldava, pois para além de não gostar de manusear armas tinha também algum receio de ir para o mato).
Tendo como entrada para o almoço os tordos - fritos - além de umas garrafas de vinho verde Três Marias, bebida que raramente nos passava pelo estreito (normalmente bebíamos cerveja, Seven-Up e Coca-Cola - sim, aqui já se bebia Coca-Cola, embora em Portugal isso só tivesse ocorrido depois do 25 de Abril), um de nós tinha ficado encarregado de ir ao refeitório buscar o prato a que tínhamos direito e que nesse dia, talvez por ser Dia da Mãe, era um prato especial, próprio de dia de rancho melhorado: bacalhau com batatas cozidas, ovo e grão - um pitéu.
Quando o camarada encarregue do transporte chegou, abrimos a boca de espanto: a iguaria trazia um reforço especial: arroz.
Não foi difícil perceber a razão de ser de tão inusitada ocorrência: o cabo cozinheiro adoeceu e quem o substituiu foi um dos ajudantes de cozinha. De seu nome Francisco Fernando Assembleia, era na vida civil electricista e só um acaso o levou para as lides da cozinha, algo de que nunca gostou, pois a sua grande paixão era o futebol - foi titular, a guarda-redes, nas camadas jovens do Vitória de Setúbal e tudo fazia para continuar na Guiné (chegou a jogar oficialmente nos Balantas de Mansoa) uma carreira que havia sido abruptamente interrompida.
Graças a este meu diário/blogue, estou hoje aqui a recordar algo de que os meus familiares, de tanto lhes contar, já estarão decerto cansados. A não ser que me engane e eles, como uma ou outra vez já fizeram, daqui a pouco me apareçam por aí e perguntem: então, António, este ano não contas aquela do bacalhau lá da Guiné?
E então, mais uma vez lhes direi que a partir do dia 8 de Dezembro de 1971, graças ao amigo Assembleia, a culinária provavelmente terá ficado mais rica com este prato especial: bacalhau com batatas cozidas, ovo, grão e ARROZ.

1 Comments:

At 10:10, Blogger segurademim said...

Bom dia António,

Gostei do episódio!!! a minha avó faz um prato de arroz de bacalhau, que se nunca provas-te podes experimentar, acredita que é delicioso!!!!

Para mim, a quem nunca tinhas contado a história, e que dorei, fica uma pergunta - o que fizerem ao arroz???

Ah também gosto de passarinhos fritos!!! senão fosse tão cedo, hora da pausa para café, já ficava a salivar...

Beijo :) (conta mais!)

 

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