terça-feira, dezembro 13, 2005

CONCORRÊNCIA NO METRO

Acabam de entrar na estação do Martim Moniz, por portas diferentes. Oiço-os e as suas vozes são-me familiares, apesar de já não viajar de metro regularmente.
Ao se cruzarem, travam-se de razões.
«Falso cego, estás rico, não precisas de andar aqui», diz ela, ripostando ele: «E tu, por que é que não o pões a trabalhar? Tu é que não precisas de aqui andar.»
Ele muda de carruagem imediatamente e ela, esquecendo a voz lancinante com que pedia há momentos - sua imagem de marca de muitos anos - continua, com toda a naturalidade, a denuncia sobre o falso(?) cego, que tem terrenos, que tem casas, etc.
Ouve-se de repente a voz de uma jovem, provavelmente mais regular nas suas viagens: «E se casassem os dois?»
Quase se generalizou o riso na carruagem e eu, aproveitando a descompressão, digo para a passageira do lado: «miséria urbana».
«Miséria, apenas», responde-me.

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