sexta-feira, dezembro 09, 2005

AMIGOS PARA SEMPRE

NINI

ZÉ FERNANDO

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Recordo hoje, com saudade e emoção, dois amigos que partiram há dois anos. O Zé Fernando, a 6, e o Nini, a 8 de Dezembro. Quis o destino que acompanhasse ambos, neste mesmo dia, 9 de Dezembro, às suas últimas moradas: o Nini, para São Domingos de Rana, de manhã, e o Zé Fernando, para Oeiras, à tarde.
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O Nini, que perfizera 54 anos pouco tempo antes (nasceu em 9 de Outubro de 1949), para além de ter andado comigo na escola primária, foi sempre o companheiro das farras e dos copos. Ainda há dias, revisitando umas fotos antigas, recuperei situações como a despedida de um amigo que partia para as colónias - o Luisinho, para Macau - ou em companhia daqueles que gostavam dos bailaricos - o Nascimento, galã, bom dançarino - ou outras, como por exemplo no Canejo por alturas da água-pé.
Normalmente, este grupo era constituído pelos citados Luisinho e Nascimento (infelizmente também já desaparecidos prematuramente), pelo Fernando Pires, o Fernando Nunes, o Eurico, o Brites, eu próprio e mais alguns que não me ocorrem de momento.
Tínhamos em comum o facto de ter começado a trabalhar bastante cedo e éramos uns tesos do caraças que com pouco se satisfaziam (que remédio...).
Há alguns anos o Nini - de seu nome Álvaro, mas eu gosto de o recordar sempre pela alcunha - havia-se radicado em Talaíde, onde abriu um café, e a vida - que nem sempre foi fácil - parecia estar a sorrir-lhe. Via-o feliz e ficava feliz por ele.
Recordo agora um episódio ocorrido no campo de futebol do Atlético, na época de 2002-2003, onde nos deslocámos para reviver o velho derby Porto Salvo-Talaíde (interrompido durante algumas épocas por desistência do Talaíde): interpelado por alguém sobre as suas preferências clubísticas, considerou isso quase uma ofensa, não deixando de vincar bem que não era o facto de estar radicado em Talaíde - e com estabelecimento aberto, digo eu... - que o fazia voltar costas à sua terra (adoptiva, penso).
Quanto ao Zé Fernando, talvez pela diferença de idades - nasceu em 11 de Janeiro de 1946 - nunca fomos de andar nos copos juntos. Isso não invalidou, como é óbvio, que sempre visse no Zé um amigo, sentindo haver da sua parte também amizade e um certo carinho para comigo. Recordo dois episódios:
Um, por volta de 1966-67, na Rua Acácio Paiva, Alvalade, Lisboa. O Zé trabalhava (era desenhador) ao tempo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, na Avenida do Brasil, e eu havia mudado de emprego por esses dias para uma tipografia precisamente nessa rua (ainda lá está). Ao ver-me por aqueles lados, pela sua reacção senti haver um misto de surpresa/preocupação, perguntando-me: «Que fazes aqui, António?» Digamos que para além do carinho que sentia por mim - na altura eu teria cerca de 15/16 anos e já estava no mercado de trabalho - havia também um certo instinto protector por alguém que era da terra.
O outro ocorreu em Janeiro de 1971. Fui visitá-lo, penso que com o Júlio Gordo, ao Estado-Maior?? (ai esta memória...) na Guiné, onde se encontrava colocado. Aqui senti em si uma preocupação maior - como é lógico - eu ia para a guerra, acabava de chegar e ainda não tinha a noção do que me havia acontecido e a comissão dele estava praticamente no fim. Predispôs-se ajudar-me no que fosse necessário, sendo as suas palavras para mim muito importantes e dando-me ânimo para enfrentar dois anos de comissão e de guerra (um aparte para dizer que o Zé, para além do conhecimento do que era a guerra, tinha a angústia de ter o irmão, Pita, também na Guiné, em pleno mato).
Porém, no caso do Zé há um outro factor muito importante: para além de ser também sportinguista - chegou a jogar futebol nas camadas jovens do Sporting - representou o Atlético Clube de Porto Salvo durante muitos anos e eu, que nunca tive jeito para a bola mas que era apaixonado pelo desporto-rei, via nele um ídolo e devo-lhe muitas alegrias, assim como a muitos outros que representaram o Atlético sem interesses de qualquer espécie (permito-me de entre todos realçar o Salvador Pintéus e o Pita, consubstanciando nestes dois muitos outros que também serviram o clube desinteressadamente).
Tenho esperança de que o Atlético saiba um dia homenagear devidamente aqueles que o serviram - está-se sempre a tempo - e nessa altura, no inevitável jogo de veteranos que se fizer, o Zé vai calçar as botas novamente e também eu terei oportunidade de lhe agradecer - e a outros - as alegrias que me proporcionaram. (Há pouco, falando com o velho Adelino, meu pai, fiquei a saber que continua disponível para os equipamentos, para a papelada...)
Não posso, nem quero, deixar de recordar neste dia alguém que há dois anos me acompanhou, de manhã e de tarde, no seu carro, na despedida a estes amigos: o Chico Alfaiate. Passados cerca de seis meses, a 7 de Junho de 2004, também o Chico partia. E também o fazia prematuramente.
Apenas mais duas palavras: como me angustia verificar que, a par de uma esperança de vida cada vez maior para os portugueses, estes dois amigos e mais os que citei: o Luisinho (primo do Zé Fernando), o Nascimento e o Xico (e tantos outros) tenham partido com menos de 60 anos...

1 Comments:

At 20:06, Blogger segurademim said...

Deve ser duro ver partir amigos tão próximos e queridos, prematuramente...
Não fiques triste
Beijo, bom fim-de-semana :)

 

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