quarta-feira, novembro 02, 2005

GUERRA COLONIAL

FOTOS DO FOGO

A propósito do post anterior, porque também fui um dos «contemplados» com a guerra colonial [Dezembro de 1970-Janeiro de 1973 (Mansoa, Guiné-Bissau)], permito-me transcrever a letra de uma canção de Sérgio Godinho, excepcionalmente bem interpretada por ele mesmo, por Camané e Carlos do Carmo e que está incluída no seu álbum «O Irmão do Meio»:
.
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
.
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p'ra mim o cheiro aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
.
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
.
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
.
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
está são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
.
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: "eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar!"
No fogo assim te estreias
.
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
.
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
.
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terramotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, ah, mas
mas será que não violamos
as ordens e as normas?
.
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
.
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
.
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nessa morada.

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home