segunda-feira, outubro 10, 2005

RECORDANDO RÓMULO DE CARVALHO (1906-1997)

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
.
De ANTÓNIO GEDEÃO
.
Se não fose esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

1 Comments:

At 17:03, Blogger Armando S. Sousa said...

Este poema de António Gedeão está plenamente adequado para esta ressaca eleitoral.
No entanto quero dizer que este é um dos poemas que eu mais gosto na língua portuguesa.
Um abraço.

 

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